top of page
Buscar

O excesso como falsa promessa de felicidade

  • Foto do escritor: Sheila Hauck
    Sheila Hauck
  • 23 de fev.
  • 3 min de leitura

Vivemos em uma cultura que valoriza o máximo, em que parece insuficiente fazer algo de forma moderada. Se for viajar, que seja para um lugar extraordinário; se for trabalhar, que seja em alta performance; se for se divertir, que seja intensamente e o tempo inteiro. Essa ideia, amplamente difundida, sustenta a sensação de que viver bem exige intensidade constante, experiências grandiosas e uma rotina que impressione.


Com a presença constante das redes sociais, essa lógica ganha ainda mais força, porque a comparação se torna quase automática: o outro parece sempre estar vivendo mais, conquistando mais, aproveitando mais. Aos poucos, o prazer deixa de ser espontâneo e passa a ser medido, observado e comparado. O que deveria gerar satisfação começa a carregar uma cobrança silenciosa de que é preciso estar sempre “no auge”.


Nesse cenário, muitas pessoas trabalham além do necessário, assumem compromissos financeiros para sustentar determinado estilo de vida e organizam a rotina em função da imagem que desejam manter. Aquilo que inicialmente parecia motivador começa a produzir desgaste, porque sustentar o “máximo” exige energia constante. Assim, o que deveria ser prazer se transforma em pressão.


O sistema de recompensa e o ciclo do excesso:

Do ponto de vista neurobiológico, essa busca contínua por intensidade ativa o sistema de recompensa do cérebro, especialmente por meio da liberação de dopamina, que está associada à motivação e à sensação de prazer. Cada nova conquista, experiência ou estímulo gera um pico que pode ser percebido como satisfação.


No entanto, o cérebro se adapta: quanto mais frequentes e intensos são esses estímulos, maior tende a ser a necessidade de repeti-los para alcançar a mesma sensação. Aos poucos, ocorre um processo de dessensibilização, em que aquilo que antes era suficiente deixa de provocar o mesmo efeito. Surge então a sensação de vazio, desinteresse e irritabilidade, mesmo diante de experiências que anteriormente eram prazerosas.


É nesse momento que se torna importante diferenciar a euforia de bem-estar. A euforia é um pico, um estado passageiro e intenso, já o bem-estar mental envolve estabilidade, regulação emocional e conexão afetiva. Quando a vida se organiza apenas em torno de picos, o intervalo entre eles pode ser sentido como queda.


A lógica do tudo ou nada: 

Esse padrão de 8 ou 80 também aparece na forma como lidamos com metas e disciplina. Ou tudo é feito de maneira rígida e intensa, ou nada é mantido. No artigo anterior sobre disciplina*, falamos justamente sobre a diferença entre disciplina saudável e rigidez excessiva, destacando como a falta de flexibilidade pode transformar um objetivo positivo em fonte de desgaste.


Quando aplicamos a lógica do extremo à rotina, repetimos o mesmo ciclo: entusiasmo inicial, cobrança elevada e, depois, frustração. Metas pensadas apenas para o curto prazo até podem gerar resultados rápidos, mas sem considerar o médio e o longo prazo, tornam-se difíceis de sustentar.


O valor do equilíbrio: 

Entre o 8 e o 80 existe um espaço que muitas vezes passa despercebido, justamente porque não chama tanta atenção quanto os extremos. No entanto, é nesse espaço que a vida se torna mais sustentável. Quando não dependemos de picos constantes de estímulo para sentir prazer, abrimos espaço para uma satisfação mais estável e menos condicionada ao excesso.


Equilíbrio não significa reduzir ambições ou viver de forma limitada, mas ajustar expectativas à realidade emocional e aos próprios limites. Significa compreender que constância produz mais resultado do que intensidade intermitente, e que experiências simples também podem gerar conexão e significado.


*Leia o artigo sobre Disciplina aqui: 





 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page